Degrau
Se existia uma constância que reconhecia na vida era a ausência. Contudo, estranhava-lhe sempre o facto de encontrar lugares vazios, outrora preenchidos. Entendia que a finitude era inevitável, escapava-lhe a necessidade de passar a vida a perder.
As chaves. O dinheiro. As pessoas.
Estava no meio da cozinha, os pés descalços no mosaico tricolor gasto. Sentia a poeira nos dedos que encaracolava e esticava para ter a certeza que estava ali. Não acendeu a luz. Preferiu ser iluminada apenas pelo sol que furava as telhas, mas que não chegava para aquecer aquele dia de inverno.
Demorou-se a olhar para lado nenhum. Sabia tudo de cor. O lugar do café que nunca mais ninguém faria, os bicos do fogão que permaneceriam frios, o relógio de parede parado, a eternizar uma hora qualquer.
Lembrava-se de ser muito pequena e de saltar o degrau que tinha à sua frente como quem mergulha de uma falésia. Pediam-lhe cuidado, mas nunca teve medo. Talvez por estar rodeada de pessoas que sempre a ampararam nas quedas e lhe curaram as feridas.
Agora estava sozinha. Ela, o degrau e a ausência.
Teve medo, mas deu um passo em frente. A pedra gasta a resvalar para as suas memórias mais bonitas.
Ouvia gargalhadas e vozes altas que não tinham vergonha de falar. À direita a mesa estava cheia e cheirava a comida e a domingo. À sua frente um portão escancarado para se correr por ele adentro. Havia bicicletas, e bolas, e giz para se escrever no cimento quente.
O fogareiro estava aceso, as batatas a fritar. Apertavam-se bancos toscos entre cadeirões de madeira velha. Apertavam-se corpos num abraço nunca declarado, mas assumido. Almoçava-se num alvoroço perfeito e repetido, mas irrepetível.
Há um dia em que a ausência interrompe o almoço de domingo. Vem ligeira. Leva um copo que se partiu no chão de mármore, um banco que ficou manco, uma bola que furou. Acaba-se o giz. Aos poucos os lugares vão ficando vazios e ela volta, mas há cada vez menos corpos, cada vez mais espaço.
Está sozinha.
Respira fundo e sorri.
A ausência é permanente e barulhenta, mas o amor é muito mais.


